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A história de duas mulheres, uma tragédia cruel.

Por: Marcos Ymayo e Rodrigo C. Souza

 

Desde a década de 90, a mortalidade materna no mundo teve uma redução de 45%. Porém, ainda assim, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) mais de 800 mulheres morrem todos os dias globalmente devido a causas evitáveis relacionadas à gravidez e ao nascimento. O desenvolvimento de complicações na gravidez que colocam a mulher muito próxima da morte, bem como a elevada razão de morte materna são praticamente exclusivas de países pobres e países em desenvolvimento. É alarmante e cruel o elevado número de mulheres que morrem todos os anos por causas evitáveis durante a gravidez ou relacionadas ao processo de engravidar. São 300.000 mulheres mortas todos os anos!

Blog A história de duas mulheresPor que é  uma crueldade? A perda de uma vida, que causa tanta dor e sofrimento, e que interrompe a história de uma família, deixando órfãos no mundo todo, por si já caracteriza uma grande tristeza. As mães e as crianças desempenham papel fundamental na sociedade, na comunidade e na economia de um país. Segundo a Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID), quando uma mãe morre durante o parto, seu bebê tem somente 19% de chance de sobreviver no seu primeiro mês de vida, principalmente em áreas com menos recursos. É justo que todas as mulheres e crianças tenham as mesmas chances de sobrevivência, independente do local onde nasçam. O resultado final assemelha-se a uma aparente indiferença perante a dor alheia. Somando-se a toda esta dor o fato de que a grande maioria destas mortes poderia ser evitada, em algum momento poderia ser prevenida, o resultado é de uma situação de crueldade.

No estudo da mortalidade materna, há realidades que merecem ser reconhecidas e analisadas mais a fundo. São fatos que chamam a atenção e que revelam a necessidade de oferecer, cada vez mais, cuidados individualizados durante a gestação. Individualizados por quê não podemos considerar que todas mulheres apresentarão exatamente os mesmos padrões clínicos e a mesma evolução durante e após a gravidez. E enfatizando que o combate à indiferença é fundamental, é urgente a necessidade mundial de eliminar a frieza e impiedade frente à morte de mulheres e crianças indefesas em todo o mundo.

Blog A história de duas mulheresNo Brasil a razão de morte materna continua acima do desejado, principalmente quando comparada com a razão de morte materna de países desenvolvidos. Os Estados Unidos têm a maior mortalidade materna dos países de primeiro mundo. Mas há uma particularidade que nos aproxima muito da situação de morte materna nos Estados Unidos, tanto aqui quanto lá, a população mais vulnerável à morte materna é a população negra. No Brasil, a maior parte das mortes maternas ocorre entre mulheres negras e jovens. Os números são muito claros, nos EUA uma mulher negra e grávida tem 4 vezes mais chance de morrer do que uma mulher branca não hispânica nas mesmas condições. Sendo assim, nada mais lógico do que manter vigilância mais individualizada para a população negra. Especificamente, no território norte americano, não há influência de escolaridade, idade e condição social. O principal fator identificável é o fato de ser mulher e negra, ou seja, os cuidados devem ser dobrados no período da gravidez e nascimento para as mulheres afrodescendentes.

No Brasil, mais da metade das mortes maternas ocorre em mulheres negras, a maior parte delas jovens e com menos acesso à educação. Como exemplo, descreve-se o emblemático caso de Alyne Pimentel, que demonstrou a vulnerabilidade da condição feminina, da raça, da escolaridade e da sociedade brasileira. Em 2014 o Centro para Direitos Reprodutivos (“Center for Reproductive Rights”) divulgou que o Comitê das Nações Unidas para Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW) declarou o Brasil responsável por violar os direitos humanos da afro-brasileira Alyne da Silva Pimentel. Em 2002, Alyne, 28 anos, com 6 meses de gestação, foi atendida em Belford Roxo, município do Estado do Rio de Janeiro, com queixa de náuseas, sendo diagnosticado problema gástrico e liberada. Após 48 horas, retornou com piora do quadro clínico e óbito fetal. Devido à gravidade, Alyne precisava ser transferida para um hospital com mais recursos, porém houve demora de mais de 20 horas na remoção, agravando ainda mais seu quadro. Alyne faleceu em 16 de novembro de 2002.

Blog A história de duas mulheresNos Estados Unidos, Shalow Irving, 36 anos, afro-americana, Tenente Comandante do Departamento de Saúde Americano, epidemiologista do CDC, com dois doutorados em sociologia e gerontologia, mestre em saúde pública e ex-aluna da Universidade Johns Hopkins, foi vítima de morte materna. Shalow apresentava coagulopatia e risco aumentado para doença cardíaca em mulheres negras, necessitando de observação cuidadosa após o parto. Após três semanas do nascimento de sua filha, parto cesáreo, apresentou complicações causadas por hipertensão. Procurou atendimento, mas não recebeu os cuidados e a atenção necessários, sendo diversas vezes liberada. Evoluiu com parada cardíaca em sua casa. Faleceu em fevereiro de 2017. Em sua memória, a Universidade Johns Hopkins realizou nesta semana um seminário para esclarecer as diferenças na saúde de mães afro-americanas e prevenir mortes como a de Shalow Irving.

O que têm em comum os dois casos? A evitabilidade. Os dois casos, apesar da distância geográfica e cultural, têm como ponto de união o fato de serem evitáveis. Em algum momento perdeu-se a chance de evitar a morte de Alyne e a morte de Shalow. Não há como recuperar as vidas perdidas. A história de vida destas mulheres foi interrompida no seu momento memorável, na celebração do nascimento e da continuidade da família.

Blog A história de duas mulheresAs perdas destas duas vidas, e das outras 300.000 vidas que se perdem todo ano, são tragédias que não devem ser esquecidas. Elas ensinam que a comunidade mundial precisa identificar e aprender com os erros, encontrar soluções sustentáveis, promover a equidade e realmente se importar com a condição feminina e com a infância. Existe a necessidade de implementar e promover programas que possibilitem a mudança de comportamento e de atitude da sociedade, dos governos, dos serviços e dos profissionais de saúde, melhorando o acesso e promovendo a qualidade da assistência e a segurança, através da aplicação da evidência científica e das boas práticas durante o pré-natal, nascimento e pós-parto.

Blog A história de duas mulheresAs estatísticas publicadas pela OMS e por organizações como a USAID têm mostrado que os cuidados devem ser dobrados, a atenção deve ser minuciosa e individualizada. Não se deve menosprezar a queixa de uma mulher grávida, os profissionais de saúde têm o dever de manter a vigilância constante e advogar pelo direito de sobrevivência destas mulheres e crianças.

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